Senhor Afonso

O senhor Afonso foi a pessoa que mais gostei de entrevistar.
Foi no dia 7 de Fevereiro e nevava um pouco em Lazarim. O senhor Afonso estava na sua casa, a aquecer-se junto à lareira, a porta entreaberta. Foi a Dona Amélia que, depois de sair do trabalho, se ofereceu para nos levar lá. Na subida para o cimo da vila, ia cumprimentando as pessoas e comentando “Vou levar estes senhores a entrevistar o teu tio!”. “Levei-lhe há pouco o lanche”, respondia a sobrinha, “ainda deve estar acordado”. Na casa sem luz, o senhor Afonso deitava-se cedo, assim que o sol desaparecia.
“Olhe, olhe, que eu não ouço!”, avisou logo. Com a ajuda da Dona Amélia, que lhe ia repetindo bem alto as nossas perguntas ao ouvido surdo, o senhor Afonso sentou-se à porta de casa e foi contando as suas histórias todo contente, sempre com um sorriso maravilhoso. Contou-nos que vendeu a primeira máscara em 1940 por 8 escudos, falou-nos do pai que era Regedor, disse-nos que foi preso durante o Estado Novo por ser proibido “brincar ao Carnaval”, quando andava a passear com o Gabriel no Domingo Gordo vestindo o fato preto de casamento e uma travesseira na cara, e que, por isso, em 1950 emigrou para o Brasil onde foi pescador e tinha um barco chamado Bartolomeu Dias. Contou-nos que regressou a Lazarim em 1971 deixando a família do outro lado do Atlântico, falou-nos da sua máscara de diabo que fez em 1976 ou 78 que fez ressurgir o Carnaval de Lazarim, da exposição de homenagem à sua vida e trabalho que fizeram “no museu” (o CIMI) e mostrou-nos orgulhoso artigos em revistas sobre as suas máscaras. Na vila, todos os artesãos o chamam de Mestre Afonso, por ser tão reconhecido o seu trabalho como construtor de máscaras. Quando lhe perguntámos quem era para ele agora o melhor artesão de Lazarim, respondeu-nos: “Agora são novos, mas se eu estivesse bom para trabalhar… Ha-Ha-hahaha!”
Despedimo-nos às sete da tarde. “Agora vou é para a cama.”, diz o senhor Afonso.
Junto ao portão de saída, três pedaços de pau de amieiro para transformar em máscaras. Confessou-nos que tinha vontade de os trabalhar ainda, mas que o frio nas mãos não lhe permitia. “Eu era para fazer, mas está muito frio. Se não, ainda fazia para me entreter.” Disse que queria fazer a máscara do filisteu Golias, que tinha visto numa imagem. “Quando aquecer o tempo, faz-me uma para mim!”, diz a Dona Amélia. “Só de Abril em diante!”
Ontem, 26 de Abril de 2018, o senhor Afonso faleceu na sua cama na sua casa na sua vila a dormir aos 92 anos.

 

2018