Savages . 21 Fev 2014 . Hard Club . Porto

Chego ao Hard Club sem expectativas. Está na moda o ressurgimento do pós-punk e as novas bandinhas cheias de referências são apenas desilusões, umas atrás das outras. Quando ouvi pela primeira vez as Savages ­– “She Will” – associei-as imediatamente às Organ, que chegaram, entusiasmaram um pouco com o seu “Grab that Gun”, mal se ouviram e desapareceram.
Mantive sempre o pé atrás com as Savages, porque desde logo – mais pela sua postura do que pela sua música – me causaram curiosidade e me esperançaram como uma possível banda promissora. Por isso mesmo, avancei só com um pé. Acautelei-me. Deixei andar. Fui ouvindo o álbum “Silence Yourself”, fui lendo os comentários e observando as reacções dos mais novos aos mais velhos – dos que sonham, dos que apanharam o fim e dos que viveram realmente a época original do pós-punk, inícios de 80.

Foram esses todos – dos 18 aos 50 – que na penúltima sexta-feira de Fevereiro faziam fila pelas nove da noite à entrada do Hard Club, na velha baixa do Porto.
Ao chegar, sem expectativas, fiquei logo bem impressionada: 1, pelo público, que se constituía muito para além dos grupos de adolescentes histéricos com bandas revivalistas – pelo contrário, era um público sóbrio e com bom gosto. E 2, pelo anúncio deixado à entrada da sala pela banda: «A note from Savages: Our goal is to discover better ways of living and experiencing music. We believe that the use of phones to film and take pictures during a gig prevents all of us from totally immersing ourselves. Let’s make this evening special. Silence your phones.»
Já tinha suspeitado que as Savages não eram só uma “girls band” a querer ser “cool”. Já várias vezes me tinha apercebido que o seu estilo e postura eram genuínos. E, cada vez mais, isso se foi explicitando até ao final da noite, quando fiquei sem ponta de dúvida.

Tudo escuro. Quatro figuras desfocadas entram em palco. As luzes acendem-se, mas só vindas de trás (contra-luz) e o que vemos das Savages são apenas os seus corpos recortados. Quatro figuras magras negras. E, subitamente, a música sem prólogos.
Fixo-me na baixista. Aqui, o baixo, para além de se sentir, ouve-se. Ouve-se e parece até às vezes que é ele que cria as melodias das canções. Fixo-me na baixista. A sombra que vejo dança com os graves que saem dela. Abana os ombros de forma intercalada. Um para a frente e o outro para trás. Depois, ao contrário. A cabeça também, com o cabelo apanhado num puxinho, sempre acompanhando aquele coração ritmado. As pernas vão com os ombros. E eu, fixada nela, de camisa apertada até ao pescoço (ela), abano-danço também ao ritmo do baixo, ao ritmo dos ombros, da cabeça e dos pés.
Esta fisicalidade, entre o coração e o ritmo, está também na baterista. Os braços alçam e baixam alçam e baixam quase em curva cobra quase ameaçando atrasar-se a chegar ao toque sempre assertivo. A base das Savages está aí, entre os ombros da baixista, Ayse Hassan, e os braços cobra da baterista, Fay Milton.

A guitarrista, Gemma Thompson, vejo-a apenas de perfil. O cabelo apanhado num rabo-de-cavalo, a roupa escura justa, a guitarra na diagonal e o olhar dirigido à baixista. Olhar retribuído. Sempre em sintonia. Mais do que recriar a melodia-base as canções, a guitarra vai criando variações em paralelo com o baixo e dando outro tempo às músicas. Às vezes, ouvem-se gritos agudos ecos ao fundo, vindos dela e dos seus dedos arrastados arranhando nas cordas da guitarra.
Ao mesmo tempo, Jehnny Beth canta “I’m here” em repetição. Antes, aconselha-nos a que a aproveitemos o momento do concerto «’cause we’re not going to be back……… in 8 years or something.» Pausa. Ri-se. “I’m here” e lembro-me da nota deixada à entrada. “I’m here”.

Sei que as Savages não gostam muito de comparações e referências a outras bandas icónicas que as possam inspirar. Pode perceber-se isso no blog diário do seu tour-manager, no relato sobre a vinda ao Porto, quando alguns rapazes do público conseguem entrar no backstage para conhecer a banda: «The guy mentions Joy Division and Siouxsie and the Banshees to Drummer and I can hear her eyes rolling from across the room.»
No entanto, como não comparar o baixo tão presente à ingenuidade inicial de Peter Hook, e a pose da vocalista Jehnny Beth à de Ian Curtis, dos Joy Division? A luz que vem do palco torna-a apenas num recorte, numa sombra. O cabelo curto com repa curta. A camisa de mangas largas apertadas nos pulsos, a lembrar os inícios da década de 80. As pernas ligeiramente afastadas e esticadas enquanto canta. O movimento que faz com os braços, centrado na rotação do cotovelo. É difícil descolar-me dessa grande referência e acho que forçar-nos a negar isso seria apenas negar uma coisa óbvia. E forçar a negação de uma coisa óbvia é quase como confirmar que afinal ela existe e é assim mesmo.

Colando-me ainda à figura de Ian Curtis, é impossível não referir um dos momentos altos do concerto – a apresentação da nova música, “Fuckers”, em que, num longo momento instrumental de batidas repetidas (muito Factory, por sinal), Jehnny faz um solo de dança, completamente desligada de todos nós. Desligada do público, do concerto, dos olhos, dos julgamentos, das referências. Uma espécie de purga, de exorcismo, onde as repetições de movimentos com as repetições da batida me lembram os vídeos que vou vendo dos concertos dos Joy Division e daquela figura solitária que parecia ter espasmos em palco, que parecia libertar-se de qualquer coisa.

O concerto acaba assim, com as repetições e as purgas, que também chegam ao público e ao seu suor e à sua cabeça e aos seus pés. Todos nos abanamos e nos libertamos de qualquer coisa.
E é assim que saímos para o frio da noite, voltamos a vestir as camisolas e os casacos, trocamos olhares com estranhos, sorrimos por partilharmos este momento e nos sentirmos um pouco mais leves e um pouco mais cheios, como se fica sempre depois de um bom concerto.