UN FILM ITALIANO SENZA SOTTOTITOLI
Relato de 3 meses em Palermo

Palermo, 6 de Outubro de 2013
Às 8 e tal da manhã, com o estômago colado às costas, levanta o avião do Porto. 11 horas depois, chego à Via Lampionelli, número 6, a minha nova casa em Palermo. Chego eu e chega a Liliana, aquela rapariga estranha que me abraçará com força de amiga ao fim de 3 meses exactos.
Entramos na casa velha de um bairro escuro e somos apresentadas a Meike, uma alemã professora com quem partilharemos dias de escritório e algumas noites de pasta e vino. Já tínhamos conhecido Alessandro, o nosso tutor, um palermitano autenticamente acelerado, que nos foi apanhar ao aeroporto e nos trouxe à casa nova.
É domingo. É noite. Chove em Palermo. A casa está um caos. Há vidros partidos. Há um frigorífico morto e sujo. Há cheiro a mofo e humidade. Há nervoso e fome no estômago. Há sono e cansaço e ansiedade pela manhã. Há malas abertas no meu primeiro quarto partilhado.
Alessandro deixa-nos com um a domani e nós saímos com Meike pela primeira vez. Leva-nos ao Garibaldi, que de imediato se torna num dos meus locais preferidos de Palermo e no qual passarei a minha última noite palermitana. Bom gosto, bom ambiente, boa música, bom vinho. Fazemos o chamado apperitivo. Fare l’apperitivo. Faz-se por toda Itália. Ao fim da tarde – nuns sítios mais cedo, noutros mais tarde – é servido uma espécie de buffet com massas, pizzas, arroz, paninis e outras coisas, do qual nos podemos servir à vontade por um preço um pouco mais caro de uma bebida.
Mortas de cansaço, regressamos a casa tentando fixar as escuras ruas e ruelas, vias e vicolos, para as refazer noutras noites, enquanto a chuva de Palermo tropical nos saudava. E o dia de trabalho que se aproximava nos ansiava.

Segunda-feira. Não há tempo para arranjar muito. Um banho apressado num chuveiro desconhecido com pouca pressão. As toalhas por lavar. A janela do quarto-de-banho partida. Ainda há vidros no chão. O chão não foi lavado. Andar na ponta dos pés. Lavar os dentes enquanto se veste a roupa interior. Não há tempo para maquilhagens e as olheiras já são irreversíveis. Faz-se o risco preto da praxe que chega ao fim do dia em borrão. O cabelo não se penteia, já se desabituou disso. Temos de sair com quase uma hora de antecedência, porque o escritório fica longe e vamos a pé. Compramos um cornetto (croissant) com nutella e vamos comendo enquanto corremos por esta cidade estrangeira. Meike já cá está há mais tempo e faz uns desvios para nos levar por ruas mais bonitas. Fazemos parte da Via Roma, rua que será sempre a nossa referência – vai desde o Teatro Politeama até à estação central junto à nossa casa. Viramos por um caminho estreito, entramos numa praça com três igrejas, uma delas com três cúpulas vermelhas árabes, uma das imagens-postal de Palermo. Um cartão de visita justo, já que por toda a cidade se vêem referências normando-árabes. O sol está inclinado e corta ao meio as paredes das igrejas e dos muros da piazza Bellini. Metade luz metade sombra. Fixo para sempre esta luz na minha memória e penso o quão bom será passar por aqui todos os dias dos próximos 3 meses. Viramos por outra passagem mais estreita. Chegamos a outra praça, Piazza Pretoria. Uma grande praça quadrada, rodeada por edifícios decadentes velhos castanhos. E o sol a cortá-los ao meio. No centro, uma fonte. La Fontana della Vergogna, como é popularmente conhecida. Esculturas da mitologia da Antiguidade Clássica, nuas e semi-nuas, sugestivas, rodeiam a fonte e olham desafiadoras os turistas que as fotografam, os carabinieri que ali têm base e a igreja burguesa e majestosa do outro lado da rua. Os meus olhos apaixonam-se imediatamente aqui agora por Palermo.
Continuamos pela Via Maqueda – outra referência –, passamos pelo Teatro Massimo, o maior teatro de Itália e o terceiro maior da Europa, depois da Opéra National de Paris e da Wiener Staatsoper em Viena –, passamos pelo Politeama, a Maqueda transforma-se em Via Libertà cheia de lojas de moda, enfiamos por uma quadrícula de ruinhas à esquerda e vamos fazendo ângulos rectos em diagonal até chegarmos ao número 21 da Via G. la Farina.


Palermo, 5 de Janeiro de 2014

Estou na cama sem conseguir dormir. A Liliana também finge que fecha os olhos na cama ao lado. Na parede, o poster gigante do Dylan Dog, o nosso herói italiano. No chão, de novo, a mala aberta cheia. Amanhã já almoço no Porto.
Hoje, de novo domingo, foi um dia estranho. Passámos o dia de pijama a adiar dobrar a roupa. Aos poucos e poucos fomos arrumando as coisas, sempre com o stress do peso extra da mala. A noite veio rápido. Vestimo-nos para saudar uma última vez a noite de Palermo. Noite calma, pouca gente na rua, chuva molha-tolos, duas miúdas de saia, botas largas e casacão, caminham devagar pela cidade. Primeira paragem: Mounir. O costume: questa cosa con verdure e molho branco. Despedida emocionada.

Continuamos pelas ruas agora já nossas e vamos parando em diferentes casinhas, petiscando e dizendo adeus. Terminamos no Garibaldi, onde tudo começou. Conversamos com estranhos, dizemos olá a reconhecidos, desenhamos camaleões e rãs com uma criança que se meteu connosco, olhamos em volta várias vezes, as pessoas saem, ficamos as duas só as duas, hoje fomos só nós as duas. Foi assim que chegámos e é assim que partimos. Enquando olho em volta e me rio dos camaleões, penso em tudo o que fizemos: a primeira ida ao Rocket Bar, as conversas na varanda do escritório onde almoçávamos todos juntos, o picnic num dos parques maravilhosos de Palermo, a ida a Cefalù e o banho no mar às 2 da manhã, a quantidade de rolos fotográficos que gastei com a Liliana, a subida ao Monte Pellegrino, os workshops que fomos dando em escolas diferentes (desde o centro à periferia mais assustadora de Palermo), a ida às catacumbas (experiência única), as patatine con salsa rosa na noite da Vucciria, todas as arancine (bolas de arroz fritas) e pezzi di pizza que comi, a ida à catedral de Monreale, aos templos de Agrigento, à força da natureza que é a Scala dei Turchi e à vilazinha de Mussomeli, a festa de Natal de Danisinni onde projectámos na praça o filme que fizemos com os miúdos de lá e nos emocionámos com a reacção deles, o nosso Natal tão português com rabanadas e bolinhos de bacalhau, a viagem doida de 4 dias em que fomos a Siracusa, a Catania, subimos ao Etna, andámos no meio da neve, conhecemos Milazzo, atravessámos de barco até à ilha de Vulcano, subimos a uma grande cratera de um vulcão, tomámos banho no mar de roupa interior no dia 30 de Dezembro, voltámos para Palermo e celebrámos o fim do ano, prometendo voltar.


Porto, 6 de Janeiro de 2014

O Porto parece-me, agora, a cidade mais limpa, mais silenciosa, mais calma onde alguma vez estive. Os portugueses parecem-me as pessoas mais civilizadas, abertas e conscientes que alguma vez conheci. A minha cidade e o meu país parecem-me, agora que voltei do caos de Palermo, uma espécie de paraíso de tranquilidade.

Costuma dizer-se: em Roma sê Romano. Mas eu acredito mais nisto: em Palermo sê Palermitano, ou: na Sicília sê Siciliano.
Para sobreviver em e a Palermo e para saber viver Palermo, temos que nos adaptar.
Uma das primeiras coisas que me disseram quando lá cheguei foi que se via claramente que eu não era palermitana, mesmo tendo eu a clássica aparência latina, de pele e cabelos morenos. Disse-mo a primeira palermitana que conheci. Si vede che non sei di qua. Verdade.

Releio as notas que escrevi no meu caderno vermelho e algumas cartas e e-mails que escrevi a familiares e amigos durante esta minha estadia numa das cidades mais loucas que conheci.

O velho de cima chora de dores todo o dia. Mamma mia! Mamma mia! O filho, suponho, ajuda-o a mover-se. Piano piano. Ai mamma mia tão angustiante. Pior que o som das ambulâncias. Os vizinhos do lado estão cá dentro de casa. Há beatas mais velhas que eu no terraço de baixo. É tudo húmido, mesmo que não chova. É tudo castanho, mesmo que seja branco. Há lixo por todo o lado. Há gente feia por todo o lado. Esta cidade é velha, podre, suja, castanha, caótica. Todos os clichés palermitanos. E, de repente, a luz do sol, ainda inclinada, mostra-me uma cidade grandiosa escondida nas ruínas. Não consigo deixar de olhar para cima, mesmo que aqui seja conveniente olhar sempre para baixo.
Caminhar caminhar muito. É difícil parar aqui. Transpirar transpirar muito. Suor a sério. Trabalhar trabalhar muito. Com nada. Omeletes sem ovos. Assusta-me conhecer miúdos com menos ou pouco mais de uma década que sabem mais da vida do que eu. Tenho o cansaço de dois meses e só passaram dois dias. Os dias têm muitos dias dentro, aqui. Os olhos pesam. A cabeça pesa. Os pés pesam. O corpo pesa. A alma toda pesa.
Ao segundo dia, o velho calou-se. Há uma rua aqui perto que tem uma loja de berços junto a uma funerária.

Hoje fui pela primeira vez a Ballarò, um mercado de rua enorme, perto da casa onde estou.
Contentores do lixo em linha. Metalizados. Couves, muitas couves no chão. Uma cauda de peixe-espada maior do que o meu braço. O lado amputado virado para nós. Grosso como a minha perna. É fim de tarde e algumas bancas começam a ser arrumadas muito lentamente. Algumas lâmpadas amarelas acendem-se, penduradas nos toldos de todos os dias. Quantas lâmpadas se acenderam já? Lusco-fusco, hora mágica e o amarelo novo. Os meus pés escorregam na humidade do peixe morto e da fruta de ontem.
Chego mesmo ao centro. Para um lado, para o outro. Desço. Vozes. Gente. Muita gente. Cores. Muitas cores. Cheiros. Tantos cheiros. Motas passam no meio de todas as vozes e de todas as gentes e de todas as cores e de todos os cheiros. Passam-me rés-vés. Ou passo-lhes eu rés-vés. Ninguém tem prioridade. Vale só a regra dos olhos-nos-olhos e o que se entende daí. Habituamo-nos rapidamente a caminhar assim. A sentir a mota atrás de nós sem a ver sem a ouvir sabemos que nos encostamos ligeiramente a um lado e ela encosta-se ao outro e se alguém vem do lado oposto ela vira quase para cima de nós mas não nos toca nunca. Os corpos movem-se em sintonia no caos do Ballarò.

Uma panela para a massa e uma faca para a fruta. Azeitonas doces e farinhentas. Pimenta forte num saquinho. Laranjas para as manhãs difíceis. Compra-se tudo com moedas pequenas. Continuamos porque não podemos parar. As vozes as gentes as cores os cheiros inebriam-nos. Cruzam vozes cruzam motas cruza gente vai ali ao meu cugino que ele tem o que procuras. E o amigo que fazia conversa na barraca leva-nos lá. Há tudo. Vale tudo.
No final da descida, fumo e mais cheiros ainda. Cozinha-se o que se vende acima. Todos os sons todos os odores mais intensos. Eu sorrio e sei que isto é a rotina desta gente. Penso em todo o exotismo que existe só na minha cabeça burguesa. Mas uma coisa é certa: estes pés não entram mais em lojas com porta, aqui.
Volto atrás, volto ao centro. Às couves, aos contentores, ao peixe morto, a escorregar na fruta d’ontem. Subo. Mais luz amarela, mais gente, mais cor, cheiro a peixe. Há bacalhau, mas hoje levo outra coisa. São sete e tal da tarde, há pouca luz do céu. Troca-se o peixe por moedas pequenas de novo. As pessoas não acabam, as lâmpadas amarelas não acabam, as bancas não acabam. Mais para cima, uma crostata siciliana a cinquenta cêntimos.
Há tudo. Vale tudo. Quero voltar brevemente para os queijos, para a fruta do dia, para o peixe fresco, para as sardinhas salgadas, para os copos que faltam no armário e a toalha que falta na banheira. Volto para o improviso e também para a lista das compras.

Regresso ao centro. Regresso sempre ao centro. É o único caminho que sei. Sigo a rua escura, passo os cabeleireiros dos africanos, passo as mercearias dos indianos, passo as bicicletas penduradas nas paredes dos italianos. Chego à Via Roma e viro à esquerda, de sacos brancos na mão. Cinco minutos e arrivo. Passo no restaurante tunisino que está aberto a noite toda e o dono Mounir já me saúda. Tenho de voltar quarta para o couscous de peixe, anoto mentalmente. Cici, o gato, continua na cadeira estofada, na entrada. Via Lampionelli. É preciso empurrar a porta com força e batê-la com mais força ainda. Primo piano.

Todas as noites se ouvem alarmes. Sirenes. Gritos. Estrondos que me levantam da cama. Ontem, berravam golo e parecia que estavam comigo no quarto. Vafanculo quando falhavam e ainda pareciam mais cá. A máquina de lavar da vizinha trabalha a noite toda. No início, acordava-me de madrugada fula, mas agora já me embala. Nunca vi a vizinha. Só vejo a máquina no piso em baixo, quando vou à pequena varanda que dá para o saguão do prédio velho. Há uns dias, vi um rato na cozinha e, dessa vez, quem gritou fui eu.
Ao caminhar na rua, não se consegue falar. As motas rosnam e os carros rugem – as suas buzinas entram pelo cérebro dentro sem pedir licença. Os bombeiros e as ambulâncias, frequentes, atingem decibéis incríveis. Vamos tentando falar uns com os outros, franzindo as sobrancelhas, como se isso despertasse mais os ouvidos. Ainda não percebi se são as motas e os carros e os bombeiros e as ambulâncias que soam todos mais alto do que aquilo que conheço, ou se são estas ruas que fazem os sons vibrarem mais.
Na rua onde vivo, alguém berra “NONNA NONNA!”. Pausa. Passado um bocado, “NONNA NONNA NONNA!”. E repete-se por uns bons 10 minutos, até que decide tocar à campainha. Às vezes não é a nonna, é o Francesco ou a Roberta. Apri la porta! Scendi! Vieni qua! Andiamo! Dai! Bò! Ma che cazzo fai?! Quando falam siciliano, ainda gritam mais – vem-lhes mesmo do sangue – mas, aí, eu já não os entendo.
Ecoam os sons todos nas paredes da cidade, do meu quarto e da minha cabeça. Ecoam todos e amalgamam-se todos. As motas e os carros, os bombeiros e as ambulâncias, a nonna e o neto cá em baixo, os vendedores e os compradores, todos misturados, todos como um só: o grito desta cidade.

Hoje de manhã, fui dar um passeio com a Liliana e o nosso professor-informal de italiano. Andámos a passear pela Kalsa, junto à Piazza Magione. Vimos coisas mesmo bonitas, que não conhecia. Sempre esta cidade que se esconde e, do nada, se revela.
Fomos espreitar o Palazzo Chiaramonte, onde hoje é a reitoria da universidade de Palermo. No gabinete do reitor, está o famoso quadro do Guttuso da Vucciria, um outro mercado de rua. Mas, infelizmente, ninguém tem acesso lá.
Passámos na Piazza Magione e o Filippo explicou-nos que toda aquela zona foi bombardeada em Maio de 43. Decidiram manter as bases das casas, para deixar bem marcado que ali existiam aqueles edifícios – daí se verem imensos rectângulos em pedra vazios. As pedras dos destroços foram deitadas ao mar e eram tantas que acabaram por prolongar um pouco a costa.

Sempre que temos tempo, vamos passear pela cidade, eu e a Liliana. Vamos até ao porto, perdemo-nos pelas ruelas da parte velha e nos mercados de rua (ao jeito do filme “Palermo Shooting” de Wim Wenders), entramos em portas entreabertas e descobrimos interiores maravilhosos, paramos sempre no cruzamento dos Quattro Canti, uma das coisas mais bonitas que alguma vez vi, metemo-nos no comboio e vamos passar um fim-de-semana a Cefalù, a Agrigento ou a Mussomeli, tentando aproveitar ao máximo este paraíso que é a Sicília.

Falo tantas línguas que já nem consigo falar uma direito. Italiano no geral. Português com a Liliana. Inglês às vezes no trabalho e com a alemã Meike. Francês às vezes com o Kacem, o tunisino-francês. Para além destes três, na associação onde trabalho há o Alessandro, a Giovanna e a Roberta, que são italianos. Há a Ana, portuguesa, que é a vice-presidente, mas vai-se embora em Janeiro. E há os turcos: a Senem, o Erdem, que vive connosco agora, e o Musa, il capo, o presidente da associação.
É aqui, no meio de todos estes estranhos e estrangeiros, que me sinto portuguesa. Sinto a vontade de dizer de onde sou, de cozinhar o que sou, de ouvir o que sou. A música. A música portuguesa tem saudade mesmo quando não a canta. Venho ouvi-la para aqui, como se não houvesse já tanto a conhecer aqui de novo! É preciso vir tão longe para saber de onde sou? É preciso partir assim para ter tanta vontade de regressar?
Gosto disto, de dizer, aqui, que olha sou dali. E tudo isto que vejo, vejo com os meus olhos dali. E tudo isto que digo, digo com a minha boca dali. E tudo isto que ouço, ouço com os meus ouvidos dali. E tudo isto que sinto, tudo isto que sinto, sinto sinto sinto porque sou dali.
Nunca serei e/imigrante. Serei sempre estrangeiro-dali.

Vou crescer aqui um bocadinho e depois volto.
Abraços apertados daqui do norte de África,
Joana.
(Ju, para a Liliana / Yoanna, para o Musa / Jo, para o Alessandro / Joaninha, para a Ana / Giovanna, para a maioria dos italianos)

Que 3 meses estes!, que pareceram 3 dias e pareceram 3 anos.

Mais fotografias da viagem em: [brevemente]