BUZLUDZHA Бузлуджа

Tudo partiu da vontade de fazer uma viagem pelos Balcãs em busca do tempo perdido nas guerras e terras dos nomes impronunciáveis, onde a história imprimiu monumentos de celebração e memória. Pegámos num carro, enchemos os bolsos de trocos e rolos e em 14 dias corremos Eslovénia, Sérvia, Roménia, Bulgária, Macedónia, Kosovo, Bósnia e Herzegovina, Croácia e Montenegro. O diário de toda a viagem é algo que não cabe sequer em nós. Está para além da expectativa porque não somos capazes de reproduzir a memória.

No lugar inóspito onde os exércitos Búlgaro e Russo expulsaram os Otomanos em 1877-78, germinam clandestinamente as origens do partido comunista búlgaro de 1891. No centro quase geométrico da Bulgária, isolado a 1441 metros de altitude, na montanha Buzludzha, um ovni aterrou quase 100 anos depois, em 1981. Sede do Partido Comunista, o edifício monumental de ar futurista foi construído voluntariamente pelas populações vizinhas e por artistas e artesãos de todo o país. Mas não vive tempo suficiente para que a história lhe faça justiça e jaz ao abandono e à ruína com a queda dos regimes comunistas da Europa de Leste.

Hoje é um edifício de apenas 32 anos, fechado ao público, ainda mais isolado dada a deterioração dos acessos, mas teimosamente perene sobre a colina, como se o seu futuro pertencesse a uma profecia por revelar. O caminho para lá chegar é em si uma experiência, uma peregrinação à imagem, à ideia de um lugar.

De mapa de estradas no tablier, procurávamos um ponto no meio da montanha, sem coordenadas. Sabíamos que era “algures por ali” e fomos indo. Os olhos atentos a cada centímetro da paisagem. Não sabíamos se havíamos de ter esperança ou se desesperar. Continuámos. Numa curva, parámos numa área de serviço quase abandonada. Mesas, cadeiras, balcão vazios e uma senhora. Não falava inglês e nós só sabíamos dizer “obrigado” em búlgaro – aprendido há umas horas num restaurante simpático de uma vila medieval. Enquanto tentávamos gesticular à senhora o que procurávamos, vimos, do outro lado da estrada, do outro lado da montanha, o que procurávamos. Estava tão longe. Era mais pequeno que a ponta do dedo mindinho com o braço todo esticado. Histéricos, apontámos-lhe “ali ali!”. A senhora abriu as mãos em “dez” uma vez e depois mostrou três dedos. Km. 10×3? 10+3? Tentámos que se explicasse melhor, mas repetia os mesmos gestos. De certeza que seriam 30 km, ou mais. Estava tão longe. O sol já estava bem inclinado a avisar o dia a avançar. Agradecemos à senhora – já o sabíamos dizer em búlgaro – e arrancámos.

Quanto mais avançávamos, mais a estrada estreitava, mais o carro abanava. O chão húmido da chuva recente, buracos cada vez maiores, visibilidade cada vez menor. 30 km assim, com o sol a pôr-se, começava o desalento a espreitar. Mas continuámos.

As curvas não nos deixavam ver nunca para lado nenhum da estrada e já não sabíamos se nos aproximávamos ou se nos afastávamos. Subíamos, era a única certeza que tínhamos e a única esperança de que talvez estivéssemos no caminho certo. Curva, contra-curva. Um grito. Está ali! O coração nos pés, os pés a tremer, a mão à boca e os olhos a brilhar. Está aqui! Chegámos. Chegámos. Chegámos. Eram 13.

As cabeças todas para trás e os olhares todos para cima. Silêncio. Pedra. Humidade. Cavalos selvagens. Ninguém. Do topo da montanha, vemos tudo mas somos tão pequenos. Damos, devagar, a volta à nave espacial, sem saber bem para onde apontar a lente da câmara nem o olhar. É tudo demasiado grandioso para ser absorvido. Junto à torre, somos formigas e as pingas da chuva da tarde caem gordas e em câmara lenta lá de cima, onde os olhos não chegam.

Na entrada principal, letras gigantes de betão – umas caídas, outras não – berram mensagens socialistas em cirílico:

«ON YOUR FEET
DESPISED COMRADES
ON YOUR FEET
YOU SLAVES OF LABOUR!
DOWNTRODDEN AND HUMILIATED
STAND UP AGAINST THE ENEMY!
LET US WITHOUT MERCY,
WITHOUT FORGIVENESS
YES, WE TAKE DOWN THE OLD, ROTTEN SYSTEM.
WORKING MEN
WORKING WOMEN
FROM ALL COUNTRIES COME TOGETHER
FORWARD! COMRADES WITHOUT FEAR
BUILD STRONG OUR GREAT DEEDS!
TO WORK AND TO CREATE.»

O portão de entrada estava fechado com um cadeado proporcional ao tamanho do edifício e era impossível passar por entre as grades – tentámos, sim! De lado, por entre alguns destroços, um buraco na parede. No chão, um monte de pedras instáveis, postas por outro curioso anterior a nós, para ajudar a subir. Depois de muitas dúvidas e muitos medos e muitas imagens mentais sangrentas, decidimos entrar. O coração continuava nos pés – a bater cada vez mais forte – e os pés continuavam a tremer – a bater cada vez mais fortes. Costas torcidas para não raspar nos vidros, a cabeça torcida para não olhar a queda e os braços torcidos a puxar o corpo todo para dentro, com a ajuda da vontade. Tanta vontade!

Já lá dentro, caem os queixos todos e ficam também aos pés, junto ao coração. Esse pára. A ironia de encontrar o sagrado na luz que passa pelos vidros partidos de uma clarabóia comunista. A estrutura de um edifício quebrado que não se verga. Vergamo-nos nós, à aura e ao peso daquele lugar. Os joelhos tremem. Treme tudo cá dentro! A magia da ruína e da decadência! A magia do peso da História e das histórias de todos os homens que ali levantaram pedras e cortaram vidro e colaram pedrinha por pedrinha por pedrinha por pedrinha até desenharem em mosaico os rostos de Vladimir Lenin, Karl Marx, Friedrich Engels e outros, fundadores do partido comunista búlgaro.

No centro – no centro exacto – do edifício, a voz projecta-se com um poder assustador. Sentimo-nos grandes aí – a voz vai tão longe que aterroriza. Preferimos ser pequeninos. Saímos do centro – do centro exacto.

A luz está cada vez mais baixa, as fotografias tornam-se cada vez mais longas, a água cai do tecto aberto, o vento entra pelas janelas sem protecção, os mosaicos espalham-se pelo chão – trouxemos umas recordações connosco, nos bolsos dos casacos, junto aos rolos.

Queremos fotografar tanto que não sabemos o que fotografar. Como fotografar o “infotografável”? Como dizer o indizível?

Saímos em silêncio, pelo buraco torcidos. Ainda temos muita estrada pela frente. A viagem torna-se efémera como os edifícios decadentes. Ficam as histórias e as fotografias.

Aliar viajar a fotografar é como aliar a fome à vontade de comer. E na viagem, a fotografia apresenta-se sempre como o invariável manual de interpretação do lugar, o olhar objectivo que “embalsama o tempo” (André Bazin).

É assim que viajamos, partimos leves de câmara ao peito e voltamos vergados com o peso das estórias guardado em micro-espaços negros, onde o futuro pode não mais penetrar.

Fotografias e texto: Joana X & Joana Coutinho & David Gonçalves Monteiro (a.k.a. The Spomeniks)

Mais fotografias da viagem em: [brevemente]