Joanna Newsom . 24 Jan 2011 . Casa da Música . Porto

Julgava que era difícil, nos dias de hoje onde tudo é produzido de forma massiva, alguma música tocar-me profundamente – aquele tocar visceral que faz o estômago tremer, o coração bater mais depressa, a pele arrepiar-se e os olhos vacilarem. Não é fácil uma música desencadear tal estado. Têm que se encontrar muitas condições reunidas para o “clique” se dar. Estava longe de imaginar Joanna Newsom chegar a esse nível. Nunca lhe dei grande atenção, muito menos crédito. Isso, até ao momento em que o concerto na Casa da Música acabou, com “Baby Birch” e as minhas entranhas bem mexidas: como se uma faca bem fina estivesse espetada algures no meu peito e tocasse a dor mais funda que tenho. E como se, cabum!, tudo viesse cá para fora – e da explosão restaria a serenidade, a plenitude, o que de mais genuíno há.

Genuína – essa é Joanna Newsom. Do fundo de tudo, cria canções maravilhosas e nunca ouvidas. Do fundo dela, do fundo de nós, do fundo da História, do fundo das histórias, do fundo da música – do country, do folk, do rock, do soul, do jazz, do blues. E do fundo dessa tradição originária nasce algo que já nada tem de tradicional, mas que se mantém original. Como disse Tiago Coen sobre a música de Joanna Newsom, «é música de raízes, mas já não se identifica nenhuma das terras dessas raízes. É música de raízes, mas do ar – não da terra.» É mais que as folhas da árvore, ou as flores ou os frutos. É a própria sabedoria da existência da árvore. É o conhecimento das suas raízes – um conhecimento tão profundo que, de tão incrustado em Joanna, a deixa partir. E ela parte e o seu som é completamente puro.

Passando por todos os seus álbuns – especialmente o último, o triplo “Have One On Me” – Joanna Newsom mostrou à Sala Suggia, quase cheia, os seus dotes musicais fascinantes. Toca harpa como se falasse. Ela mesma disse que a harpa é mais uma parte do seu corpo. A sua voz é magnífica, originária de uma qualquer raiz e viajando por mundos altíssimos (para quem diz que a sua voz é de menina, informe-se, porque está muito enganado). Todas as suas músicas enfeitiçam, seduzem sem maldade.
“Baby Birch”, no final, simbolizou o que foi todo o concerto: de uma caixinha de música e uma canção de embalar, com Joanna no papel de boneca de porcelana, chegou-se a um som poderosíssimo com os rasgos da guitarra eléctrica a crescerem e a bateria, e o trompete e as palmas e as vozes femininas a elevarem-se do coro.

Um especial elogio a Ryan Francesconi, (guitarra, kaval, banjo, mandolin), o grande responsável pelos arranjos das músicas e cuja influência dos balcãs está bem presente em “Colleen”, por exemplo. Também um enorme respeito a todos os outros músicos que acompanharam Joanna Newsom ao Porto – Neal Morgan (bateria), Andy Strain (trompete), Mirabai Peart e Veronique Serret (violinos) e todos nas “backing vocals” e nas palmas. Devo ainda mencionar a excelente qualidade do som, para além da mestria dos músicos e da acústica da sala.
Não sei se Joanna Newsom leva sempre isso atrás de si, mas naquela noite, naquela sala, tudo estava em harmonia. O público estava sereno (só tremiam por dentro), o som estava pleno, e Joanna genuína.

[A abrir a noite, integrado na tour europeia de Joanna Newsom, esteve o “singer-songwriter” escocês, Alasdair Roberts – compositor contemporâneo de canções tradicionais –, que abriu as portas à melancolia e nos trouxe belas melodias para ir aquecendo os corações mais frios.]

Setlist:
Book Of Right-On
Have One On Me
Easy
Colleen
Inflammatory Writ
Soft As Chalk
Cosmia
Good Intentions
Peach Plum Pear

On A Good Day
Baby Birch