Mandar os outros à fava

«A leitura permite mandar os outros à fava.»
Ouvi, numa entrevista a Miguel Esteves Cardoso de 2006.

Da primeira vez que a ouvi, não lhe dei a devida atenção. Ocupada com coisas de muito menos interesse – de certeza – acabei por nem sequer ouvi-la até ao fim. Não a queria desperdiçar com o meu quotidiano absurdo. Quis guardá-la, como os vinhos, para um dia certo. Mas nunca há dias certos. Passaram alguns anos e ela ficou na gaveta com esses anos todos em cima.
Há uns tempos, enquanto arrumava gavetas e lhes limpava os anos guardados, folheei um dos cadernos do fundo. No meio de uma página de notas, havia uma escrita na diagonal.
«A leitura permite mandar os outros à fava. MEC»
Não me lembrava de onde vinha isto.
Ao reler a frase fora do contexto, associei-a de imediato à minha vida prática. Ler permite mandar as pessoas à fava, nos transportes públicos, nas repartições de finanças, nas esplanadas de conversas cíclicas. Não ter que olhar a maioria das pessoas nos olhos e poder fechar-me no meu – ou noutro maravilhoso – mundo, era o paraíso. Para mim, mandar pessoas à fava era simplesmente fechar os olhos e fingir que elas não estavam lá.

Mas queria saber mais sobre esta frase.
Fui ao mundo virtual e escrevi-a. A partir de um blog que a citava, cheguei a um vídeo e, quando o abri, lembrei-me de um dia de quotidiano absurdo, em que não ouvi uma entrevista até ao fim e anotei num caderno uma frase na diagonal com as iniciais do autor, esperando por um dia certo.

Pois bem, é hoje o dia certo. Carrego no triângulo como os dos leitores de K7s e a frase cresce.

«A leitura permite mandar os outros à fava. Se tens os teus livros, as tuas coisas para ler, os teus jornais, seja o que for, tu és independente. Não precisas de falar, de conversar, de ir para o telefone. As asneiras que se fazem têm muito a ver com o não querer estar sozinho.»

Isto é afinal mais do que fechar só os olhos. Mandar as pessoas das finanças à fava, só porque me são indiferentes, não chega. Mando-as à fava porque não quero nem preciso nem sou o que elas querem precisam são. Não quero dizer que sou melhor. Não sou. Mas eles estão ali e eu estou em tantos outros lugares. Não tenho que estar ali, mesmo estando ali. E o meu tédio é tão mais cheio! E eu chego a casa e não preciso da televisão. Não preciso. E estou à espera do autocarro e não preciso de pegar no telemóvel. Não preciso. E estou na esplanada e não preciso de fazer conversa forçada. Não preciso. Posso, mas não preciso.
Se há liberdade, está nisto.
«3 horas para eu poder estar aqui a ler o meu livro e não me chateiem!»

(Escrever também permite mandar os outros à fava.
«Vocês não imaginam o poder que é saber escrever.» MEC)

 

2013