A cinza

Alguém aspira a casa, em cima. O ritmo do aspirador. Para a frente e para trás, para a frente e para trás. Bate na perna de uma mesa e um copo cai. Ouve lúcido o vidro a quebrar. E os pedaços maiores a quebrarem de novo. Outra vez e outra vez e outra vez. Até o copo ser só pó. Pó aspirado para a frente e para trás para a frente e para trás. Os vidros batem no cano do aspirador. Enquanto puxa o fumo, ouve tudo. O ritmo frenético, alucinatório quase, da limpeza obsessiva para a frente para trás para um lado operário para o outro purgatório. Operário. Purgatório. Operário. Purga o aspirador pára. Um grito indistinto mais agudo que os vidros e o copo no chão. Pausa. De novo, o ritmo. O pó. Os pêlos da casa-de-banho. Os vidros. As migalhas do pão duro. Ah foda-se a cinza no peito. Sacode! Aqui não vem aspirar. Pisa a cinza, os pés descalços. Vira costas à janela. E ela. Acabou o tabaco.

Ouve. A chuva toda. O papel todo. A queimar. A cinza toda. O sabor todo. Na língua. Áspero. O corpo imóvel. Completamente imóvel. Só o gesto mecânico de levar o cigarro embrulhado à boca. Mesmo na ponta dos dedos. Ao puxar, vêm-lhe da ponta dos dedos os cheiros de todos os cigarros fumados. O corpo imóvel. Completamente imóvel. Só o movimento mecânico da barriga a expulsar o fumo pela boca. O cheiro de mais um cigarro fumado. Apagado. O corpo imóvel. Completamente imóvel. Uma sinfonia de portas e janelas a fechar. A chuva fecha portas e janelas e pessoas atrás de portas e janelas. Bate também a porta dele. Ele fora. Sapatos desapertados, gabardine só num braço, a cinza nos pés e na boca. Mesmo na ponta dos dedos.

2013