Cat Power . 28 Maio 2008 . Coliseu do Porto

As luzes apagam-se. Há movimento em palco. A banda acomoda-se: teclista, baixista, baterista, guitarrista. São os Dirty Delta Blues Band: Greg Foreman, Erik Paparazzi, Jim White, Judah Bauer, respectivamente. As luzes de palco acendem-se. E a ‘gata’ entra. O ‘poder’ despoletado por ela faz-se notar na reacção efusiva do público. Saúda-nos com um “boa noite” em bom português. Não sei muito sobre Chan Marshall, e o que sei resume-se a uns singles ouvidos na rádio, uns artigos lidos na internet e à sua aparição no mais recente filme de Wong Kar-Wai, “My Blueberry Nights”. Sabia do efeito da sua sensualidade, mas não da escala desse efeito. As duas primeiras canções são marcadas essencialmente pela sua voz, já que não aparece muito expressiva fisicamente, talvez devido à presença dos fotógrafos mesmo em frente ao palco, pois quando a produção os manda sair, ela acena-lhes, despachando-os. A partir daí, o concerto cresce, Cat Power cresce, e os músicos crescem com ela.

Por entre originais e versões (presentes no seu novo álbum “Jukebox” e no de 2000, “The Covers Album”), rapidamente hipnotiza o Coliseu. A sua voz, magnética. As palavras, meio-incompreensíveis. O modo como se mexe-dança. Todos os olhos fixos nela. Blues blues blues. Flashes ilegais. Gritos do público: “I love you!”. A plateia está rendida, completamente seduzida por Cat Power, que desliza no palco, bate os seus sapatos brancos ritmados no chão, solta e apanha o cabelo por cada música, cresce cada vez mais.

De repente, desaparece. Ficamos com uma improvisação do teclista e do baixista, sozinhos em palco. De início o público deixa-se ir no free-jazz deles, mas logo a impaciência por Chan se vai  revelando. Não se percebe se a sua saída foi programada, ou espontânea; não há sinais claros. Mas, nem 15 minutos passados, já Cat entrava calmamente em palco, sem grandes ondas. Sempre cool, num blues ‘softzinho’. Um novo crescendo, desta vez mais poderoso. Gesticula mais, dança mais, puxa mais pela voz, pelo ritmo. Já há quem se levante na plateia, já há quem acompanhe com palmas. Está na altura de apresentar os músicos, magníficos, que a acompanham. Na sua voz extremamente quente e num rouco-sensual, não se poupa em descrições e elogios a cada um deles. E, por fim, banda apresentada, o teclista apresenta “a mulher que todos vieram ver, Chan Marshall, Chan Marshall.” E repete o nome artístico “Cat Power Cat Power Cat Power Cat Power Cat Power Cat Power Cat Power!” E ela sabe que é ela. E dentro da sua timidez, o ego sente-se cá fora. Nós deste lado estamos apaixonados.

Num crescendo imparável, perto já de se atingir a catarse final, A Mulher pede que se acendam as luzes do público. Atira flores brancas retiradas de um bouquet. E, tal como aconteceu no espectáculo anterior em Lisboa, desce para o meio da plateia, com vários lugares já vazios. Sempre a cantar, sempre a crescer. Sobe para o cimo de uma cadeira. Todos se levantam, todos aplaudem, todos fotografam, todos filmam, nada é proibido agora. Alguns fãs beijam-na, outros estão pasmados simplesmente com a presença tão perto deles da mulher que tanto admiram. Aquela mulher intocável junta-se a nós. Tão perto. A voz ali. Tão livre, tão solta. Apoteose.

Ela volta para o palco, onde pertence. A banda sai: ficam apenas ela e o teclista. Dois fãs sobem para o palco, mas logo a segurança os afasta de Chan. Já há leis aqui. Em jeito de brincadeira, Cat Power faz das set-lists bolas de papel e vai-as atirando ao público, como se estivesse a jogar baseball.

Acaba. Ao som de “Maggie’s Farm” de Bob Dylan. Ela sai de lado ainda a dançar. Naquele seu estilo muito próprio, tímido-mas-extravagante. Parece ter gostado. Nós, aqui, gostámos de certeza.